Arquivo para a categoria 'Referências'

16
jan
10

As intermitências da morte

Perdida qualquer esperança, rendidos os médicos à implacável evidência, a familia real, hierarquicamente disposta ao redor do leito, esperava com resignação o derradeiro suspiro da matriarca, talvez umas palavrinhas, um última sentença edificante com vista à formação moral dos amados príncipes seus netos, talvez um bela e arredondada frase dirigida à sempre ingrata retentiva dos súbditos vindouros. E depois, como se o tempo tivesse parado, não aconteceu nada. A rainha-mãe nem melhorou nem piorou, ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas atada a este por um ténue fio que a morte, só podia ser ela, não se sabe por que estranho capricho, continuava a segurar. Já tínhamos passado ao dia seguinte, e nele, como se informou logo no princípio deste relato, ninguém iria morrer.

José Saramago

02
jan
10

Bem que eu queria ir

Na verdade, escreveu Freud, nossas reações emocionais à morte mudaram pouco desde os tempos primitivos. Afinal, a ciência continua incapaz de descrever a experiência direta da morte e mesmo de nos convencer do despropósito de nossas deduções instintivas a respeito da possibilidade de uma vida após a morte. Nosso insconsciente continua “ainda tão pouco receptivo como sempre à idéia de nossa própria mortalidade”. No escuro, em silêncio, instados por sons inexplicáveis em um cemitério, nossa incerteza latente sobre a natureza da morte reemerge.

SHAWN, Allen. Bem que eu queria ir : notas de uma vida fóbica; tradução Caetano Waldrigues Galindo. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p 168




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.